Quando o R.E.M. lançou “Around the Sun”, em 2004, a banda já era uma das maiores referências do rock alternativo mundial. Depois de clássicos como “Automatic for the People”“Monster” e “New Adventures in Hi-Fi”, qualquer novo lançamento carregava expectativas enormes.

Foi justamente por isso que “Around the Sun” acabou se tornando um dos discos mais controversos da carreira do trio. Recebido com críticas divididas, o álbum passou anos sendo apontado como um dos trabalhos mais fracos da banda. Com o tempo, porém, muitos fãs passaram a enxergá-lo sob uma nova perspectiva, valorizando sua atmosfera melancólica e suas letras reflexivas.

Um retrato de um mundo em crise

As gravações aconteceram em um período marcado pelas consequências dos atentados de 11 de setembro, pela Guerra do Iraque e por um clima de forte polarização política nos Estados Unidos.

Embora Michael Stipe evitasse transformar o disco em um manifesto explícito, boa parte das letras reflete esse contexto. Faixas como “Final Straw”“The Outsiders” e “Aftermath” abordam incertezas, conflitos e a sensação de desgaste vivida naquele momento.

Um som mais contido

Diferentemente da energia de “Monster” ou da experimentação de “Up”“Around the Sun” aposta em um ritmo mais lento e contemplativo.

Os arranjos privilegiam teclados, guitarras discretas e uma produção bastante polida, criando um clima constante de introspecção. Essa escolha dividiu opiniões: enquanto parte da crítica elogiou a maturidade do disco, outra considerou a produção excessivamente contida e sem a urgência característica dos melhores trabalhos do R.E.M.

“Leaving New York” virou o grande destaque

Entre todas as músicas do álbum, “Leaving New York” foi a que recebeu maior reconhecimento.

A faixa se tornou o principal single de “Around the Sun” e continua sendo uma das canções mais lembradas dessa fase da banda. Outras músicas, como “Electron Blue”“Wanderlust” e “The Outsiders”, esta última com participação de Q-Tip, do A Tribe Called Quest, também mostraram o interesse do R.E.M. em experimentar novas sonoridades.

Um disco que a própria banda passou a questionar

Curiosamente, os integrantes do R.E.M. também demonstraram insatisfação com o resultado final.

Em entrevistas posteriores, Peter Buck afirmou que o álbum poderia ter sido mais direto e energético, enquanto Mike Mills comentou que a produção acabou deixando as músicas excessivamente lentas. Essa autocrítica influenciou o disco seguinte, “Accelerate” (2008), que representou uma volta ao rock mais urgente e cheio de guitarras.

Um álbum que envelheceu melhor do que parecia

Mais de vinte anos depois, “Around the Sun” continua dividindo opiniões, mas também passou a receber uma reavaliação por parte dos fãs.

O que antes era visto apenas como um álbum lento hoje é percebido por muitos ouvintes como um trabalho maduro, introspectivo e coerente com o momento vivido pela banda e pelo mundo. Talvez ele nunca ocupe o mesmo lugar de clássicos como “Automatic for the People”, mas permanece como um dos discos mais interessantes e incompreendidos da fase final do R.E.M.