Ao longo da vida e da carreira, John Lennon desenvolveu uma relação curiosa e quase obsessiva com o número 9. Para ele, não se tratava apenas de coincidência, mas de um símbolo recorrente que parecia atravessar momentos importantes da sua história pessoal e artística.

As Origens da Obsessão

Tudo começa no básico: Lennon nasceu em 9 de outubro de 1940, na cidade de Liverpool. Além disso, em algumas interpretações, seu aniversário cai no nono mês do calendário chinês. Esse primeiro contato já colocava o número como parte da sua identidade, mas o curioso é como ele continuou aparecendo em diferentes fases da vida. Sua infância em Liverpool também foi pontuada pelo número: ele morava na “9 Newcastle Road”, e as palavras “Newcastle”, “Liverpool” e “Wavertree” possuem nove letras cada. O ônibus que ele pegava para a faculdade de arte, o número 72, somava nove (7+2=9). Lennon costumava comentar, em entrevistas, que o 9 surgia repetidamente em situações importantes, como datas, horários e até eventos aparentemente aleatórios.

Conexões musicais e profissionais

O número nove permeou a trajetória dos Beatles. A primeira apresentação da banda no Cavern Club ocorreu em 9 de fevereiro de 1961. Meses depois, em 9 de novembro, eles conheceram seu empresário, Brian Epstein. O primeiro contrato de gravação com a EMI foi assinado em 9 de maio de 1962. O single de sucesso “Love Me Do” foi lançado como Parlophone R4949. A estreia icônica dos Beatles no “The Ed Sullivan Show” aconteceu em 9 de fevereiro de 1964. Até mesmo o sobrenome de seu parceiro de composição, Paul McCartney, tem nove letras, e a carreira dos Beatles durou nove anos.

Essa presença acabou se refletindo diretamente na música. Um dos exemplos mais famosos é “Revolution 9”, faixa experimental lançada em 1968 no The Beatles (White Album). A música, que foge completamente do formato tradicional, é construída a partir de colagens sonoras e loops, incluindo a repetição hipnótica da frase “number nine”. O trecho se tornou um dos momentos mais marcantes e enigmáticos da discografia da banda.

Mas a relação de Lennon com o número vai além dessa faixa. Em sua carreira solo, ele lançou “#9 Dream”, em 1974, uma música carregada de atmosfera onírica. Segundo o próprio Lennon, a ideia surgiu a partir de um sonho, reforçando ainda mais o caráter quase subconsciente dessa conexão com o número. Curiosamente, “#9 Dream” alcançou a nona posição nas paradas da Billboard Hot 100 e continha um refrão com nove sílabas em uma língua inventada. John Lennon e Yoko Ono, que se conheceram em 9 de novembro de 1966, se mudaram para os Estados Unidos em 1971. Nove anos depois, em 1980, Lennon foi assassinado e levado ao Roosevelt Hospital, cujo nome tem 9 letras e fica na 9th Street.

Seu filho com Yoko Ono, Sean Lennon, nasceu em 9 de outubro de 1975, exatamente no dia do aniversário de Lennon, como se o número continuasse marcando eventos centrais da sua vida.

Um Legado Numérico

Lennon nunca afirmou categoricamente que acreditava em numerologia, mas também nunca escondeu o fascínio. Em diferentes entrevistas, ele tratava o 9 como algo especial, uma espécie de “sinal” que o acompanhava. Esse tipo de pensamento dialogava com o momento mais experimental da sua carreira, especialmente no final dos anos 60, quando ele se aproximou de conceitos mais abstratos ao lado de Yoko Ono.

Mesmo após sua morte, a conexão com o nove persistiu. Embora John Lennon tenha falecido em 8 de dezembro de 1980 em Manhattan, no horário de Liverpool, já era 9 de dezembro. A soma dos algarismos do ano de sua morte (1+9+8+0) também resulta em 18, um múltiplo de nove. A fascinação de Lennon pelo número nove, seja por coincidência, numerologia ou um senso de humor peculiar, adiciona uma camada intrigante à sua já rica e complexa história. Para muitos fãs, esse tipo de coincidência ajudou a construir a aura mística em torno do artista.

FONTE: RADIOROCK