No início dos anos 1980, Rita Lee e Roberto de Carvalho já haviam encontrado uma combinação que mudaria definitivamente a trajetória da cantora. A parceria artística iniciada no fim da década anterior aproximou o rock de Rita de uma linguagem cada vez mais pop, sem abandonar o humor, a provocação e a irreverência que sempre fizeram parte de sua obra.

Em 1982, essa química chegou a um de seus pontos mais fortes com “Rita Lee e Roberto de Carvalho”, álbum também conhecido como “Flagra”. Segundo a Discografia Brasileira, o trabalho foi lançado pela Som Livre/EMI-Odeon e teve produção de Rita, Roberto e Max Pierre.

A parceria que virou assinatura

Naquele momento, Roberto de Carvalho já era muito mais do que um músico acompanhando Rita. Os dois compartilhavam composição, produção e criação dos arranjos, desenvolvendo uma linguagem própria.

No disco, Roberto aparece nas guitarras, piano e teclados, enquanto Rita assume os vocais e participa também da instrumentação e da produção. As dez faixas mostram como a parceria conseguia transformar rock, pop, disco e new wave em uma sonoridade imediatamente reconhecível.

“Flagra” e o cinema transformado em música

Uma das grandes músicas do álbum é “Flagra”, composição de Rita e Roberto criada para a novela “Final Feliz”.

A canção brinca com o imaginário das antigas sessões de cinema e com a ideia de um encontro escondido dentro de uma sala escura. Rita explicou posteriormente que a composição misturava referências dos Beach Boys e de Tony Campello, buscando justamente aquele clima juvenil associado ao cinema e ao rock dos anos 1950 e 1960.

A faixa acabou se tornando tão marcante que seu nome passou a ser usado informalmente para identificar o próprio álbum.

A gravação também reuniu músicos importantes da música brasileira. Além de Rita e Roberto, participaram nomes como César Camargo Mariano, Lincoln Olivetti, Robson Jorge e integrantes do Roupa Nova, que contribuíram principalmente com instrumentos e vocais de apoio.

Esse conjunto ajudou a construir uma produção sofisticada, característica da música pop brasileira do começo dos anos 1980.

Um dos maiores sucessos da carreira

O impacto comercial foi enorme. Registros da época apontavam que o álbum já havia ultrapassado 650 mil cópias vendidas em janeiro de 1983, poucos meses depois do lançamento. Estimativas posteriores colocam suas vendas totais na casa dos milhões, e o trabalho recebeu certificação de platina dupla no Brasil. O sucesso também ganhou os palcos com a Rita Lee e Roberto Tour Brasil 83, enquanto o especial televisivo “O Circo” ajudou a apresentar a estética do álbum ao grande público. “Rita Lee e Roberto de Carvalho” é importante porque registra uma artista que já não precisava provar sua ligação com o rock. Dpois dos Mutantes, do Tutti Frutti e de discos fundamentais dos anos 1970, Rita podia experimentar abertamente com a música pop sem perder sua personalidade. Ao lado de Roberto, encontrou uma maneira de combinar guitarras, sintetizadores, romantismo, humor e comentários sobre a sociedade brasileira em músicas capazes de dominar as rádios. Mais de quatro décadas depois, “Flagra”, “Cor de Rosa Choque” e “Só de Você” ajudam a explicar por que a parceria entre Rita Lee e Roberto de Carvalho se tornou uma das mais importantes da música popular brasileira.